Escrintura

Interessam-me as formas, as linhas rígidas que estruturam o mundo e as linhas frágeis que desenham as suas estruturas. Considero estas linhas a base de qualquer forma; olhar para uma tela ou uma casa é observar um insustentável exercício de poder, mas fundo nas profundezas deste desenho que estrutura o poder habitam as fadas que sustém as linhas mais pesadas e contém os símbolos mais rígidos. Em todos os momentos da admiração de uma coisa, por mais banal que ela se apresente em toda a sua profundidade, um pouco mais além, encontramos as suas linhas mestras que definem pelo espaço vazio da coisa, a totalidade do seu conjunto, e eis o que eu pinto. Interessam-me as formas e a forma como as formas se formam na mente, e os planos, a forma como os planos se intercetam dando profundidade às linhas do mundo; então, relaxo a mão e de um movimento traço a arquitectura viva e dou-lhe a perenidade e fragilidade de um traço. Não foi o primeiro poema manifesto no erguer de uma pedra, anexar a verticalidade e a virilidade? Deixo escorregar a pena pela silhueta pensada do ombro que bebe o café à minha frente, eu desenho o mundo e ele tem por base as mesmas fadas e as mesmas linhas que elas mesmas sustém, e sem me prender na poesia de uma ideologia do movimento falsificada pelo acto supersocial de um miserável bebedor de café, eu olho os homens nas suas portas e gavetas e não vejo mais que os seus miseráveis rostos compostos da gravidade fina das linhas mais absurdas. Perco-me então nas montanhas das estruturas das mentes mais rígidas; e que sei eu do mundo senão as linhas que eu pinto? É a economia a metáfora matriarcal. A colmeia das fadas, de onde se cantam as linhas primordiais que trabalham os trabalhos do mundo. Isto eu sei, não se pinta. E que digo da pintura, de uma de tantas pinturas, da minha ou qualquer outra? Não sei se este homem que vem cá sentar-se comigo à mesma hora sabe beber café corretamente, mas conheço os ângulos frágeis dos seus movimentos e a biblioteca de arquétipos florais no padrão dos seus casacos. Não é a pirâmide o primeiros grande poema? Cada homem é objetivamente um edifício com os seus alçados e fachadas e eu tropeço o dia todo em casas sem porta, ou cuja porta é um muro disfarçado, e retrato os muros fechados em tinta que olham, rasgando as portas, os seus próprios jardins outonais interiores, miseráveis, cansados e melancólicos.

Olho o mundo e as suas paisagens e os seus homens como pequenos grandes edifícios que escondem nos seus recantos as linhas que delimitam o mundo. É objetivamente cada homem a linha mestra de um edifício biológico que se faz cidade e paisagem, e se distribui em circunferências concêntricas pela rua que ora germina a urbe ora a urze. Então eu os pinto como objectos de estruturas desenháveis, rabiscando pela mancha da tinta as paisagens mecânicas e os edifícios corpóreos feitos de mármore e sangue. Ora um jardim ou uma fábrica, eu os pinto num arrêgo do coração, de um sopro da alma, em que a minha inteligência encontra na sua sensibilidade as linhas sustentadas pela magia organizada das fadas, que fazem da majestática geometria interna do mundo a efémera arquitectura das pequenas coisas.

O fim do Mundo

Não é ainda o fim do mundo. Quando o fim do mundo chegar eu vou muito provavelmente chegar atrasado, e pior de tudo, ninguém vai lá estar para me julgar, serei só eu e a moralidade, e não é sequer muito grande esta que eu trago comigo; o fim do mundo vai chegar e vou lá chegar eu e a minha moralidadezinha pouco de depois, não há provavelmente muito mais espaço para grandes moralidades no fim do mundo, grandes virtudes ou religiões, pior do que isso é que eu vou ouvir um grande sermão da minha moral também ela atrasada e depois há-de chegar a minha mãe para me dizer que eu estou mau arranjado e depois os meus amigos para me dizerem que nem no fim do mundo eu relaxo e deixo as coisas acontecerem. Grande lata, que aconteça!, não, não esperem por mim, guardem só duas garrafas de vinho verde e um rissol de camarão. não quero empatar ninguém.

Longe de mim atrasar o fim do mundo, mas tenho outras coisas para fazer. Eu já sei que vou chegar atrasado e bem vestido e no fim eu vou pensar: Foi para isto que eu vim? Tanto histerismo, tanto escândalo, tanta cerimónia, tanta promessa de que agora é que vai ser e no fim… No fim do fim do mundo… Foi para isto que eu vim? Para isso vou fazendo as minhas pequenas coisas à minha maneira e chego lá à hora que chegar, não quero saber se vai estar lá toda a gente. mas tendo que ir, faço só mais um jogo de xadrez na app, vejo as ultimas transferências talvez, talvez leia uns artigos tão extensos que explicam as mais recentes incongruências das ultimas descobertas astronómicas, depois tomo banho, nem lavo o cabelo, pego num trapo qualquer e saio.Já sei que aquilo vai ser uma pasmaceira, só vou porque é o fim do mundo, estive à espera dele, não lavei os dentes, um gajo não pode faltar. Gosto das camisas velhas, daquelas que parece que já foram lavadas muitas vezes e ficam roçadas pela costura, se for já no verão vou de calções e chinelos, calções porque aquilo é capaz de aquecer e os chinelos é para tirar se for para andar ao cacete. se é para lutar luto descalço, os pés devem estar tão focados na garganta do outro como as mãos prontas para amparar o chão. é sempre assim em todas as festas, há sempre um gajo que arma barraco porque não gosta de qualquer coisa em mim, nisso é como a minha mãe, depois eu digo «desculpa o atraso» e lá vêm os amigos para cima de mim. não é isso o fim do mundo, e eu às vezes também provoco.

Pode ser que quando eu chegue lá já a festa tenha acabado. Não sei se me perdoava mesmo assim, tenho esta ansiedade dentro de mim que está sempre a dizer-me que agora é que é, que a vida é agora, nem é agora é já, vai para a festa, aprende a divertir-se, mais nada importa… Isto é a sede. Depois eu chego lá e mando duas piadas sobre a gaja dos tacões de agulha porque eu sou acupuntor, digo que é o fim do mundo e tiveram a guardar-se no gin e respondo torto ao cão de uma exnamorada e já só quero é ler um livro sobre de poesia, no sofá da sala com a televisão ligada, e depois fico ali. Os meus amigos estão a falar de como era fixe uma outra festa qualquer; já estou a ver, eu sentado no meio do fim do mundo com toda a gente a divertir-se e a lamberem a testa uns aos outros, outros a falarem sobre subcultura qualquer tipo ficção cientifica e a rirem-se muito alto e ainda uns com cara de cú porque ninguém olha para eles porque estão mau arranjados precisamente como a minha mãe gosta e as gajas no fim do mundo só querem pau; e eu, se eu fui é pelo vinho, primeiro porque a textura do vinho verde agrada-me, depois fico à espera que venham chamar vinho ao branco e depois já tenho tema para um sermão que cancele o Apocalipse de tão antioxidante, é que só há vinho verde ou maduro, sendo destes melhor o verde., e o resto é mijo de uva velha com diabetes. Como só há uma gaja gorda interessada em mim eu faço referencia ao branco e ela sai chateada porque acha que eu a chamei gorda e que sou machista, o que poderia muito bem ter acontecido e não digo que não tenha deixado escapar um certo desconforto que tenha sentido por parte dela em relação ao corpo dela quando disse que gosto de vinhos encorpados mas não largos; já vi pior, disse-lhe. Já estou a imaginar que vem aí o fim do mundo e eu vou ter uma ressaca terrível no dia a seguir. Vou acordar na cama com uma hippie qualquer que engatei a falar de yoga e com com piadas manipuladas mas muito desenvolvidas que envolvem a kundalini, ela já estava toda drogada 1. é o fim do mundo, 2. já passa das 3 da tarde, e se já tinha problemas em aceitar o mundo capitalista tal como ele é (impotente e sujo), quanto mais acabar com uma coisa tão mau resolvida. Fazemos a obrigatória cópula matinal cheia de sonhos e violência e ela é hippie e de esquerda e tem problemas com o falo do pai e mais ainda com os da mãe e vai dizer-me então enquanto enrola os meus pêlos do peito «O que fazermos agora depois do fim do mundo?» É isto todos os fins de semana, tiro-a de cima e pergunto-lhe onde estava no 25 de Abril? Não tem idade para saber isso e eu vou preso se continuar com isto, penso; não lhe digo que já vi e me falaram de tantos fins do mundo e como já não tenho cú para tanta festa de merda, no próximo fim do mundo nem apareço.

trovoada

Os raios como caminhos mais curtos dos electrões. ka-bum! Os meus caminhos mais curvos entre divagações. brrr-booom! As rectas como imagino as mais curtas direções. trommm! Os pensamentos como impossíveis conclusões. kra-rroum! Os electrões como isto ou aquilo ou outra coisa qualquer. ka-brom! Isto e o resto como tudo mais, estou por tudo, é o que me disserem que é. Os raios dos electrões que não se orientam, os meus pensamentos directos para os edredões, as rectas de conclusos impossíveis e as divagações cada vez mais curtas. Resta-me que ranjam os raios à roda de mim ribombando rudes rugidos na ronda noturna, entretantos tremendos trovões tramam na tormenta trovas terríveis tremendo nas trevas e luzindo livre livedas linhas luteas que limam no leino limite uma leve luz lilás. e Zás!

A cacophonous cannonade of thunder,
doesn’t it make you wonder?
blasting buss of blunder,
pitter-patter rain, pouring under,
streets awash like tumult tundra,
lucid lightning flash,
clip-clop heels as people dash

“Storm” – William Thomas Dodd

O livro negro

Penso num livro inescrível. Uma história de rodeios inovelados e emaranhados sem fim, e depois, uma conclusão astronómica de todos os seus conflitos à velocidade de uma pena movida à velocidade atómica; um LED acesso no fundo negro do infinitamente possível. Seria dizer: Eis o livro, este é o Livro. Este livro conta uma história; a história ditada por uns, auditada por outros e totalmente inaudita, porém conhecida por todos, porque todas as histórias são a nossa particular forma de mergulhar inevitavelmente numa mitologia geral. A História é intermitentemente a folha e a raiz da mitologia. E eu conheço as mitologias e o mito e o verbo que as criou, eu pequei e vi o mundo, sujei-me nele. Como podemos já mergulhar numa mitologia sem levarmos uma potente marretada no crânio nu? O Livro como marretada nua no crânio impotente.
Eis as pequenas forças que organizam os átomos da grande literatura: metalinguistica, intertextualidade, poesis e estilo: a bigorna, o martelo; a água e o fogo. Na montanha onde os anões forjam as masmorras morais nas catacumbas da memória.
Dizia, sobre as mitologias, as histórias plenas de transversalidade, o guião uno da coragem e dos medos, um livro repleto de uma história insofismável, fruto das alquimias literárias possíveis onde se unissem a mecânica e a química. Um homúnculo perfeito das partes inquestionáveis da grande literatura, a mistura de todas as coisas, os sumos de todas as frutas onde cultivaram os heróis os seus senhores, e os seus senhores os seus monstros, e os seus monstros os seus heróis feitos da mesma aberração e coragem. Percebam, um monstro é apenas a aniquilação de um herói concentrada como um ditador é a aniquilação dos sindicalistas, e um ditador que derrota os sindicalistas é no fim um ser derrotado à espera da morte da pena que escreveu a sua história, pois ele é apenas um espelho, e se a história então se revela como monstruosidade, já são então os monstros que as lêem e os monstros constroem outros senhores que serão outros heróis que serão os monstros de outros monstros. E assim um livro repleto de toda a banalidade e tédio de todas as obras propostas a serem grandes porque não vivemos senão num grande livro autorizado por todos. Mas se dito de forma tão grave e absurda, com uma forte invocação do estilo traz a grandeza destes caminhos propostos à grande mistificação das criaturas mágicas; dos mamutes gigantes de vários pisos das Américas, aos Ogres musicais da Flandres que se vestem com pitorescas telas, aos proverbiais políticos prosadores da Austrália, marsupiais – dentro da bolsa dentro do bolso, dentro da bolsa dentro do bolso -. Se recuso os homens-personagem é por que eles são todos a paisagem e delas a mais árida, mas senão de um movimento da pena livre, digo, de erguer a escrita de um ápice: sei onde vais sacristão-liberal, sei os caminhos do poder e interessas-me, como entrelaças as malhas do teu linho, quando o cultivaste, quando punturaste o dedo na roca tingindo de sangue o chão e como se vê no entrelaçado linear do teu casaco inteiro toda a magia e fantasia entregue às alquimicas artes metamorfas da compra. Dizer então, como desce do céu num bailado arcaico baloiçando, qual pena que cai como sobre a mão do autor, essa cidade capital de onde as grandes leis do mundo brotam escritas por trezentas mãos de homens pagos ao peso da própria cidade, o ouro que também ele veio esvoaçante do espaço fantástico, palavra por palavra, nenhum nascido naquela cidade sem ter saído da biblioteca donde escrevinharam as rendas, mas servidos das bebidas mais finas pelas mulheres mais nuas deste reino e dos outros. Mortos todos de uma pazada de piolhos literários a entrarem pelas orelhas, pela nesga dos olhos, piolhos a entrarem literariamente pelas narinas e enchendo a boca de cada um.
Daqui, brotando de uma terra fértil como nuvens, onde o solo é tão macio que se desfaz pelos dedos dos agricultores, que foge à precipitação da enxada pela energia implicada na velocidade da pá de ferro sobre a terra que é tão macia como as nuvens que se desenham nos sonhos dançáveis dos agricultores. Aqui, morando precisamente nos últimos capítulos deste livro negro, a vida é tão simples como se de um paraíso se tratasse, onde é dos rios repletos de peixes que os homens caçam as suas algas onde a fartura abunda nos tempos em que as vacas não precisam de engordar, é preciso pousar os peixes de volta nos rios pois eles enchem os baldes que são precisos para regar os jardins que plantamos, onde as uvas se estouram no calor do verão inundando o ar de vinho. E é este jardim o herói que não dorme, não se esforça e a todos conquista.

Gritavam numa manifestação que é tudo a mesma coisa, estava um conjunto indistinguível de gente agrupada a fazer alvoroço. É tudo a mesma coisa repetiam incessantemente. Ora, eu queria há muito perceber se havia coisas que não têm nome ainda, pegar num inominado ao colo e aceitá-lo como tal. Tão certo que estava de que as invocações afloram a magia adormecida das coisas, que ri. Como havia de haver algo que ninguém lhe apontara um dedo que fosse?, fosse qual fosse o dedo, e assim transformar a tal formosa coisa numa enorme malha formada de alegria ou ódio que se desdobra infinitamente nos campos imemoriais. Estas pessoas eram em si mesmo iguais, riam como quem chora e não faziam coisa nenhuma que alguém não faça também. Lembrei-me logo da sobrancelha e do intercílio. Então fui e gritei que era tudo a mesma coisa e abraçamo-nos nisto, uns estavam de tronco nu, outros vestidos, mas era realmente tudo a mesma coisa, embriaguei-me nisto e gritei não só que tudo era a mesma coisa como que nada realmente fazia diferença alguma. Pegaram-me logo ao colo, lançaram-me no ar e perguntaram o meu nome, nunca ninguém perguntara o meu nome, gritei que Nós não temos nome!; É tudo a mesma coisa!, gritei, e eles gritaram comigo. fomos juntos nisto pela praça fora e celebramos e cantamos canções e no fim trocamos abraços e sorrisos. Fomos cada um para a sua casa, fazer cada um a sua coisa, mas sentindo que estávamos todos ainda juntos, ainda fazia cada um a mesma coisa nas diferentes cada coisa que cada um fazia. Então, convenci os amigos que é tudo a mesma coisa, lentamente deixei de dar nomes às coisas, era afinal tudo a mesma coisa, e passei a não ver mais coisa que não fosse mais do mesmo. E ainda agora não sei o que pensar disso.

o Vento na floresta

O som abana as árvores. Prende o cientista e o monge na orla do medo. Ambos são difíceis de discernir na noite da floresta, cérebro, corpo, ambiente, cultura e folha, ramo, tronco, raíz; quase que o cientista toca naquilo que é mais imaterial na àrvore quando transpiram do mesmo ar entre eles e quase que o monge não vê senão a agressividade da noite ao corpo. Ouvem o mesmo som vindo do fundo horizontal escuro, o cientista sabe que é um urso e o monge sabe que é deus. Os dois acham que o sabem a percentagem de certeza que os faz achar saber. Se for um urso, devem recuar ou esperar? Se for deus devem avançar ou esperar? O autor, se estivesse lá, não descartaria a hipótese de serem as fadas da floresta, como esperar? Sendo impossível recuar ou avançar. Seres vestidos de urze, repletos de luz em arbustos de sombra, o seu toque vivo da harpa de fogo é morte imediata dos sentidos, um prelúdio de morte e vida, talvez nada mais que o vento apenas, uma experiência derradeira, espaço e tempo na coragem da noite o fogo do medo, o vento na floresta, mas um momento marcante no movimento mutante da metamorfose do mundo.

…gresso

As crias do sol são a criação do mundo, ninguém tem pai algum num tempo tão intrincadamente entrelaçado no espaço e um espaço tão desnecessariamente  entrelaçado nos relógios nos bolsos dos homens da bolsa. Há um momento em que o texto começa, um momento indivisível desde o acto necessário de o comprar, irremediavelmente entrelaçado com o acto de eu  vender o meu mesmo dinheiro comprado pelo suor; digo, em que momento o texto começou?, no momento em que escrevi a primeira letra de uma palavra talvez apagada, ou a ultima? Em que momento o texto é texto ou o arroto insalubre da caneta, que roça sobre o papel roço, e tem o preço do suor acumulado pelos homens limpos e cheirosos deste insatisfeito mundo que escreveram à sua maneira as histórias dos outros? Que olham estes livros e compram com o suor malcheiroso dos outros um cheiro mais bem cheiroso para si. Não há cultura que não seja um desenho, não há outra coisa que desenhos ou musica, os muito materialmente entrelaçados desenhos do ar. Olho o mundo para conhecer a fundo as oscilantemente entrelaçadas superficies das coisas, vejo desenhos. Vejo o presente de uma caneta que passou e deixou o seu próprio desgosto digestivo, onde começa o atrito e acaba a normal reacção de uma folha isoladamente entrelaçada com a memória de si mesmo como colónia instável, este amor de tinta organizada mais não é que um vómito de bílis negra de um corpo pensantemente entrelaçado na navemãe de um sistema de trabalho vicioso e psoriaticamente entrelaçado entre a maldade de uns e a ingenuidade de outros. A árvore é linda. A mais nobre das construções humanas é o reflexo entrelaçadamente perdido no coração de um homem que vê uma árvore e a quer tocar. Somos seres que abraçam árvores, e entrehumanalaçadamente a braços com os abraços de papel  desenhamos nos papeis das personagens de celulóide os desenhos dos contornos superficiais dos bustos vastos das mulheres mais belas, aprendemos a fechar esta memória em uma caixa mágica e dissemos: olhem a ciência que apaga o seio, cavernosas superfícies reveladas de gordura. Reduzidas ao bem no desenho de uma linha mais simples e pura que sustém as próprias forças que sustém o mundo, o seio só que apaga quem apagou o mundo.

O seio feito da matéria das estrelas, a grande massa que nega a gravidade do mundo. O seio que dá vida à criação. O seio que é uma acumulação de luz, nós que trocamos suor por luz, luz por relógios atempadamente entrelaçados com um espaço físico muito concreto e valioso em matéria de suor mercantilizável. Sabemos do século XIX, eles escreveram-nos sobre ele e queimaram os nossos livros, assim como sabemos que lhe está tipograficamente entrelaçado o XXI, e descobertos que estamos de isto tudo ser mais cómico que cósmico e ainda assim mais cósmico que mundano, de sabermos que não há nada que já não saibam as mãos de há muito, de vivermos de uma certa alquimia chinesa atabalhoadamente entrelaçada com a ciência astroexagerada, de sermos matéria do sol e de vivermos com a sua luz estagnada em plantas e de quem as estagna nos diversamente entrelaçados estômagos até chegar a mim.  A cíclica consciência da classificação do mundo. entre as classes estruturais e funcionais, os organizadores e os organizados, os homens e os jovens. É cómico que haja um capitalista por trás de cada vez que a luz é onda e um operário quando a luz é partícula e ninguém já pense como se materializa esta dialéctica, mas o que é sério é que nos nossos abracadabramente entrelaçados e místicos estômagos nós abraçamos as árvores que roubaram ao sol que nos pariu o leite da sua luz e no seio do seu papel escrevo este amor com canetas cósmicas que desenham as mais viciosas caricaturas de uma sensibilidadegeral dos homens, onde suados, aleanadamente entrelaçados vivemos de beber condenados o suor de uns para salivação abundante de quem sorbe o nosso e salivamos disperdiçadamente entrelaçados sobre mais suor dos outros. Digo, isto não são mais que os contornos de um grande desenho onde o negro recorta o branco porque não decidimos ainda que é o branco quem recorta o negro, mas também não é menos que um grande pontapé no cú quando salivamos sobre sonhos que só bebendo o suor dos outros os realizaremos. É difícil sonhar ser uma árvore eterna e beber directamente da fonte de luz materna, rejeitar a ser um papel, e ver tanta nádega malformada sobre as mais belas madeiras que este mundo de um suspiro criou, e se o cú por si mesmo de nada chora e de nada ri porque de nada sabe; já a cadeira companheira que já foi estrela: sorri agora o seu sorriso suado.

Em última análise um tubarão representa a energia armazenada de milhares de algas. Ou digamos que são as algas quem colhe o trigo neste país luminescente. Há uma hierarquia nisto, uma equipa de futebol; quando um vírus ou um homem- quem sabe quem intercede por quem – caça um tubarão ninguém se pergunta se o homem é, em que momento da análise for, a energia armazenada de tantos tubarões. E alguma vez virá a perguntar-se se é ele próprio um mecanismo avançado dos micróbios em primeira análise. A moral estuda a loucura, e a loucura estuda a moral, pelo que nesta direcção os elementos não se cruzam e nada sabe a moral da moral, quanto se importa a loucura de si mesmo.

Da mesma forma há momentos em que são os loucos quem amassa o pão, outros há que comam o pão dos moralistas. Em que momento perdemos o controlo? Se são agora os peixes médios a energia acumulada dos tubarões.