as máquinas de desenhar emoções

O Bernardo tinha sido preso porque insistiu na frente de um deputado que os edifícios pertenciam apenas às suas gárgulas e cachorros: São eles quem mora nos prédios! Os homens são a sarna do tijolo. O betão corrói o tempo! estava rabiscado em cada muro da cidade e nisto o governo fizera-nos um favor, a cidade era praticamente só muros, então desatamos a rabiscar. Por vezes entro na penumbra deliberada de um edifício olhando as formas retilíneas dos alçados, a morfologia inquebrantável das lajes e admiro as pequenas provocações das linhas, lembro-me que não posso perder a noção do ridículo ou logo me civilizo. Aqui não acontece nada, dizem-nos as paredes inférteis, havia-as tão estéreis que quase nos arrependíamos de gastar a tinta, porém não falhávamos uma parede. Por vezes chego à cama cansado de pensar o mundo, mas hoje, penso que cada arquitecto deve sair com um número de série determinado e cada arquitecto deve sair com um erro determinado e talvez se encontre um defeito no fábrica de fazer arquitectos. Penso que, se utilizar um computador suficientemente potente serei capaz de ainda nesta vida descobrir a relação matemática entre o erro e os contemporâneos do erro. Depois seria um mero jogo político, convencer os outros do que o que está errado é que é bom. Talvez pudesse então utilizar o próprio arquitecto para isso.
Saí de casa com o arquitecto errado escondido dentro do casaco e quando encontrava um camarada ou um amigo que não fosse bufo dizia-lhe: reparai!, reparai como se mexe, reparai como é um arquitecto errado; reparai, descem-lhe as calças até aos sapatos! Sabe desenhar! Depois pedia-lhe que explicasse as linhas do céu no prédio. Víamos logo que não era um arquitecto que funcionava bem pois não tinha grande paleio, pegava num caderninho e fazia na nossa frente composições numéricas de grande qualidade e depois explicava com um desenho as relações das formas. Se lhe pedíssemos que dissesse algo, ele dizia que o desenho mentia menos que as palavras. Talvez haja qualquer coisa de profundamente não literário neste arquitecto, disse um camarada que era médico. De facto, os bons arquitectos do passado, os que vinham com erro, não tinham uma particular dificuldade em expressar sentimentos, apenas o faziam pelo desenho, eram máquinas de desenhar emoções. Quando ao almoço lhe perguntamos se queria vinho ele respondeu com um sorriso sem olhar para o rótulo da garrafa, ficamos surpresos e deixamo-lo à tarde no jardim, enquanto fomos fazer uma pequena sesta e amar-nos todos enquanto discutíamos a questão de Singapura. Quando voltamos ao jardim, havia uma pequena floresta negra e os animais mágicos faziam fila para entrar. Demos-lhe então um martelo para a mão e fomos dançar para o salão. Uns dançavam e os outros ficavam a conversar nos cantos do grande salão. Voltamos depois de contarmos os pincéis para o ataque do fim de semana, sabíamos que havíamos de ficar surpreendidos com o seu trabalho. Saímos e o arquitecto errado dormia à sombra de um carvalho no jardim, demos uns passos para fora para admirarmos a sua obra. O caixote de betão que tínhamos ocupado era agora uma bonita casa de granito, não tinha um alçado envidraçado nem um centímetro da fachada era cego, era uma casa térrea e era adorável ficar a olhar para ela. Sobre a porta que dava para o jardim, um azulejo dizia: A casa deve ser o baú de tesouros da vida. Sorrimos, conhecíamos o grande pensador revolucionário que era o autor da frase. Pensamos que talvez com um único arquitecto fossemos capazes de mudar o mundo. Vivêssemos uma vida suficientemente longa para o ver. Explodimos de confiança e rimos tão alto que o acordamos. Então eu cometi um erro radical. Ele veio ter connosco e estendeu-nos a mão que tinha o martelo. Eu estendi a minha mão e fechei a mão dele com força sobre o martelo e disse-lhe. Vai, usa a tua arte, salva a arquitetura e muda o mundo.
Ele martelou a cabeça de cada arquitecto.
Na manhã seguinte acordamos com a noticia que todos os arquitetos tinham sido assassinados com uma martelada na cabeça. Nesse dia bebemos e saímos à rua com as armas entre os carros a arder e já estava o povo todo a partir as paredes, a reconstruir as casas e a calcetar as ruas e a ocupar as estradas com lindos passeios e as auto estradas por jardins, a revestir os muros de flores e a plantar as arvores para daqui a cem anos. Uma bola vermelha rolou até aos meus pés, uma criança corria na minha direção com os seus olhos brilhantes, dei um chuto tosco na bola e choramos.

todos livros queimados pertencem ao reino do céu

Uma característica da sociedade chinesa através dos séculos é a adaptação à mudança. Comecemos por uma redundância. Há na cultura chinesa a ideia de que no “mandato do céu” se justifica o poder de um imperador, este poder que tanto se lhe é atribuído como se lhe é retirado – mais do que um romantismo revolucionário, surge a ideia de um mérito subjacente à conquista, ao poder pragmático da força; e a incapacidade de proteger, em tempos o povo, em tempos o território, como sendo a maior ofensa ao destino. Por outras palavras: todo o golpe de estado bem sucedido é justo. Pese esta ideia ser profundamente reproduzida na literatura, ela é relativamente recente em relação aos primeiros registos históricos da China que remontam à dinastia Xia, à volta de 2200 a.C.. No entanto, tal como a ideia de mandato do céu foi produzida muito mais tarde na dinastia Zhou, também é possível que a dinastia Xia possa ter sido engendrada tardiamente pelos pinceis desta unânime dinastia Zhou. A dinastia Xia, a ser, será a primeira das dinastias históricas, ainda que seja dúbia, a existir já não é pré-histórica, tendo antes o Imperador Amarelo inventado os caracteres chineses. Esta dinastia Xia, que sucede ao período mitológico – o tempo dos três Augustos e dos cinco Imperadores – figuras lendárias, semi-divinas que ainda hoje fazem parte do folclore chinês. O Imperador amarelo, o primeiro dos cinco imperadores, foi quem, diz a lenda, ofereceu a medicina chinesa aos chineses e ao mundo, ainda que o augusto Shennong, um dos augutos, oferecesse as ervas medicinais, serão, por tanto, referidos mais tarde. Como hoje a dinastia Xia é posta em causa por alguns historiadores, a dinastia Shang que lhe sucede foi também questionada, mas é hoje uma teoria coesa. Há na malha intrincada da história tanta confusão, quão confusas são as tramas da política.

https://www.theguardian.com/science/2012/jun/28/ancient-chinese-pottery-oldest-yet

A china, para nós a China do período Qin, período do primeiro imperador a unificar os diferentes estados, é para eles o País do Centro, 中国. Da mesma forma que cedo se deram conta que era um país que está a leste do mapa, e portanto o sol chega lá primeiro, ou seja o dia seguinte e por esta lógica o futuro.
Nesta ideia que o futuro do mundo começa ali, fizeram conhecimento e queimaram os livros, e tantos de medicina chinesa foram queimados pelo primeiro imperador por fazerem referencia a espíritos. Eles que fizeram uma imensa armada imperial, no séc. VI, tão grande que hortas havia dentro dos barcos e chegaram à África do Sul. Em vez de invadirem todos os países, levaram girafas para a China e sem motivo destruíram todos os barcos. Inoculavam o vírus da varíola por volta do ano 1000 e faziam transplantes de fezes por volta de 1600 o que está muito em voga por estes lados, hoje em dia. Mais fizeram e desfizeram, a história da China é a história que ficou nos livros, dos livros que ficaram na História.

https://en.wikipedia.org/wiki/Burning_of_books_and_burying_of_scholars


E para ler essa história é preciso outros livros que expliquem os caracteres que lá estavam. O grande mérito, se tem mérito algum, da cultura chinesa não é ser a história dos escritores, mas a história dos seus possíveis leitores. E, por exemplo e extensão, a história da medicina chinesa é a história dos grandes comentadores às grandes obras da história e dos grandes e escassos leitores dos caracteres tradicionais. Como poderíamos não criticar o que não percebemos?

A história faz a política e a política faz a história. O grande dragão dourado, não é só o mandatário do céu, mas a inércia das coisas serem como são, tal é que mudam a própria mudança, um império caído do céu, mais o estado confucionista complexo, a ética imponente legalista dos imperadores, o taoismo melancólico de um trabalhador da grande muralha, os cinco elementos da culinária da avó e o yin e yang da mãe e do pai: a mãe, porque mulher, vive com outras mulheres na parte sombria e calma da casa, e o pai, porque homem, vive com os outros homens na parte externa e politica, e tu, que és um menino chinês, se tiveres uma irmã não deves vê-la.
É isso que me parece importante reter, a história da China é consequência do pensamento chinês, mas a história do pensamento chinês é ele próprio um predicado da história. A incapacidade de separar o yin do yang, o sujeito do predicado, o agente da acção, a causa do efeito e a raiz do sintoma são um motivo, diriam, para que o mandato do céu os abandonasse. Uma cultura que trabalhou e trabalha incansavelmente para a estabilidade, e nisso criou e cria tanta coisa nova. Mas se eles já complicaram tanta coisa, como podemos nós simplificar o que é tão complexo e aceitar o que é tão diferente?

No rescaldo de eleições não posso evitar isto. E por causa das diferenças. As grandes organizações do século XX ocidental tem um espelho no período axial chinês:
– Os reinos combatentes da China do sex v a.C. como a primeira metade do séc xx europeu.
– os confucionistas ou os comunistas do Sec VI a.C.
– ou Mohistas, os ditos verdadeiros socialistas em V a.C.
– yangistas ou os individualistas do sec V a.C.
– os legalistas chineses do séc III a.C como os autoritários do nosso século 20, sem dúvida, os antepassados de Maquiavel.
– os taoistas como os anarquistas do séc IV a.C.

o caminho da flor de ameixeira

Imagine o leitor que estamos em Pequim, acaba o ano do Rato de terra em Janeiro de 1949. Surge o ano do Boi de Terra. Uma nova sociedade está a nascer, há uma quebra entre o que era e o que vai ser, os homens movem-se, descobrem diferentes trabalhos, novas formas de produção; a produção move a organização e a política muda o trabalho. Este passado novo move o velho futuro e nascem novos presentes.
Dizer que muda a organização do trabalho numa sociedade não será muito diferente de dizer que são descobertas, ou simplesmente adaptadas, actualizadas, as mesmas ferramentas de manipulação do mundo; se, cá fora, a cada ferramenta se desdobra uma ou várias novas funções, e por cada nova função se aprimoram e se diferenciam as antigas ferramentas para funções mais específicas; dentro de cada um, diferentes ideias surgem porque o mundo é já diferente e as mesmas vontades exaltadas pelos novos tempos.

  • (À data da escrita deste ensaio estamos a 21 de dezembro de 2020, ano da graça de 4718 na China, ano do Rato de Metal e que acabará em Fevereiro de 2021)

O mundo é irremediavelmente materialista; como dizem os marxistas: é do movimento que nascem as ideias, e não o contrário. Como tantos pensamentos da cultura ocidental contemporânea (e veremos mais tarde como os pensamentos de hoje se reproduzem neste passado distante), esta ideia marxista não é muito diferente de um pensamento chinês perdido algures no tempo conhecido como: é o arroz que faz o vapor, e não o contrário. Mas sabemos hoje, e com os melhores instrumentos, que este vapor muda ele próprio a complexidade do arroz. Perceber esta relação entre as estruturas e as suas funções, ou seja, entre o yin e o yang, é a finalidade destes textos. Adaptando este tema ao eixo da especulação científica dos dias de hoje, com uma tradução muito livre: A matéria diz ao espaço-tempo como se curvar; O espaço-tempo diz à matéria como se mover.
É o devir constante deste tema, sob novas formas, aquilo a que chamamos progresso. E nisto nos encontramos outra vez, e já sabemos que, como as ideias não fazem o arroz, a cultura não faz as sociedades, ou os corpos no seu conjunto, mas a altera e altera-os.

flor de ameixeira

É inverno na China, a flor da ameixeira chinesa brota dos ramos das árvores e pequenos arbustos no amadurecer do frio mais vigoroso. É uma flor amada na China, frequentemente retratada em pinturas e poesia. Metáfora da perseverança e esperança, da beleza, pureza e da transitoriedade da vida. Porque floresce no Inverno frio, esta flor é para a cultura confucionista um símbolo que representa os princípios e valores da virtude. A cor suave que invade a neve austera não lhe rouba a preponderância mas divide-a devolvendo à neve sisuda uma elegância etérea. Hoje é utilizada como signo da luta revolucionária de outrora. Do novo que recomeça, o que vem de Leste.

Este blog propõe-se ao exercício de compreender as contradições que o corpo encerra: como a primavera que irrompe do inverno se assemelha ao corpo que da cama desperta, como uma flor subtil que luta contra a neve mais agreste se assemelha à luta popular. Levo emprestado do conhecimento do yoga esta ideia de que o corpo não nos fala directamente. Dentro de nós ocorre o cortejar irresolúvel entre as divindades do ego e do corpo, na inspiração o ego abraça as camadas externas do corpo e na expiração estas abraçam o ego. Do corpo, para encontrarmos as respostas às suas necessidades, não só precisamos compreender os seus limites internos: físicos, e mentais, mas também os externos: sociais e ambientais.
O cortejar irresolúvel da matéria e do tempo, do movimento e das ideias, da estrutura e das funções, do feminino e masculino, do corpo e da mente, da lua e do sol, da água e do fogo, do yin e do yang, do Qi e do Sangue. E é no corpo como instrumento para compreender o mundo, e no mundo como ideário das potencialidades do corpo, que as contradições expostas pela medicina chinesa desvendam as nossas misteriosas riquezas.

Importado ainda quente daqui: edmundocadilhaacupuntura.wordpress.com

Escrintura

Interessam-me as formas, as linhas rígidas que estruturam o mundo e as linhas frágeis que desenham as suas estruturas. Considero estas linhas a base de qualquer forma; olhar para uma tela ou uma casa é observar um insustentável exercício de poder, mas fundo nas profundezas deste desenho que estrutura o poder habitam as fadas que sustém as linhas mais pesadas e contém os símbolos mais rígidos. Em todos os momentos da admiração de uma coisa, por mais banal que ela se apresente em toda a sua profundidade, um pouco mais além, encontramos as suas linhas mestras que definem pelo espaço vazio da coisa, a totalidade do seu conjunto, e eis o que eu pinto. Interessam-me as formas e a forma como as formas se formam na mente, e os planos, a forma como os planos se intercetam dando profundidade às linhas do mundo; então, relaxo a mão e de um movimento traço a arquitectura viva e dou-lhe a perenidade e fragilidade de um traço. Não foi o primeiro poema manifesto no erguer de uma pedra, anexar a verticalidade e a virilidade? Deixo escorregar a pena pela silhueta pensada do ombro que bebe o café à minha frente, eu desenho o mundo e ele tem por base as mesmas fadas e as mesmas linhas que elas mesmas sustém, e sem me prender na poesia de uma ideologia do movimento falsificada pelo acto supersocial de um miserável bebedor de café, eu olho os homens nas suas portas e gavetas e não vejo mais que os seus miseráveis rostos compostos da gravidade fina das linhas mais absurdas. Perco-me então nas montanhas das estruturas das mentes mais rígidas; e que sei eu do mundo senão as linhas que eu pinto? É a economia a metáfora matriarcal. A colmeia das fadas, de onde se cantam as linhas primordiais que trabalham os trabalhos do mundo. Isto eu sei, não se pinta. E que digo da pintura, de uma de tantas pinturas, da minha ou qualquer outra? Não sei se este homem que vem cá sentar-se comigo à mesma hora sabe beber café corretamente, mas conheço os ângulos frágeis dos seus movimentos e a biblioteca de arquétipos florais no padrão dos seus casacos. Não é a pirâmide o primeiros grande poema? Cada homem é objetivamente um edifício com os seus alçados e fachadas e eu tropeço o dia todo em casas sem porta, ou cuja porta é um muro disfarçado, e retrato os muros fechados em tinta que olham, rasgando as portas, os seus próprios jardins outonais interiores, miseráveis, cansados e melancólicos.

Olho o mundo e as suas paisagens e os seus homens como pequenos grandes edifícios que escondem nos seus recantos as linhas que delimitam o mundo. É objetivamente cada homem a linha mestra de um edifício biológico que se faz cidade e paisagem, e se distribui em circunferências concêntricas pela rua que ora germina a urbe ora a urze. Então eu os pinto como objectos de estruturas desenháveis, rabiscando pela mancha da tinta as paisagens mecânicas e os edifícios corpóreos feitos de mármore e sangue. Ora um jardim ou uma fábrica, eu os pinto num arrêgo do coração, de um sopro da alma, em que a minha inteligência encontra na sua sensibilidade as linhas sustentadas pela magia organizada das fadas, que fazem da majestática geometria interna do mundo a efémera arquitectura das pequenas coisas.

O fim do Mundo

Não é ainda o fim do mundo. Quando o fim do mundo chegar eu vou muito provavelmente chegar atrasado, e pior de tudo, ninguém vai lá estar para me julgar, serei só eu e a moralidade, e não é sequer muito grande esta que eu trago comigo; o fim do mundo vai chegar e vou lá chegar eu e a minha moralidadezinha pouco de depois, não há provavelmente muito mais espaço para grandes moralidades no fim do mundo, grandes virtudes ou religiões, pior do que isso é que eu vou ouvir um grande sermão da minha moral também ela atrasada e depois há-de chegar a minha mãe para me dizer que eu estou mau arranjado e depois os meus amigos para me dizerem que nem no fim do mundo eu relaxo e deixo as coisas acontecerem. Grande lata, que aconteça!, não, não esperem por mim, guardem só duas garrafas de vinho verde e um rissol de camarão. não quero empatar ninguém.

Longe de mim atrasar o fim do mundo, mas tenho outras coisas para fazer. Eu já sei que vou chegar atrasado e bem vestido e no fim eu vou pensar: Foi para isto que eu vim? Tanto histerismo, tanto escândalo, tanta cerimónia, tanta promessa de que agora é que vai ser e no fim… No fim do fim do mundo… Foi para isto que eu vim? Para isso vou fazendo as minhas pequenas coisas à minha maneira e chego lá à hora que chegar, não quero saber se vai estar lá toda a gente. mas tendo que ir, faço só mais um jogo de xadrez na app, vejo as ultimas transferências talvez, talvez leia uns artigos tão extensos que explicam as mais recentes incongruências das ultimas descobertas astronómicas, depois tomo banho, nem lavo o cabelo, pego num trapo qualquer e saio.Já sei que aquilo vai ser uma pasmaceira, só vou porque é o fim do mundo, estive à espera dele, não lavei os dentes, um gajo não pode faltar. Gosto das camisas velhas, daquelas que parece que já foram lavadas muitas vezes e ficam roçadas pela costura, se for já no verão vou de calções e chinelos, calções porque aquilo é capaz de aquecer e os chinelos é para tirar se for para andar ao cacete. se é para lutar luto descalço, os pés devem estar tão focados na garganta do outro como as mãos prontas para amparar o chão. é sempre assim em todas as festas, há sempre um gajo que arma barraco porque não gosta de qualquer coisa em mim, nisso é como a minha mãe, depois eu digo «desculpa o atraso» e lá vêm os amigos para cima de mim. não é isso o fim do mundo, e eu às vezes também provoco.

Pode ser que quando eu chegue lá já a festa tenha acabado. Não sei se me perdoava mesmo assim, tenho esta ansiedade dentro de mim que está sempre a dizer-me que agora é que é, que a vida é agora, nem é agora é já, vai para a festa, aprende a divertir-se, mais nada importa… Isto é a sede. Depois eu chego lá e mando duas piadas sobre a gaja dos tacões de agulha porque eu sou acupuntor, digo que é o fim do mundo e tiveram a guardar-se no gin e respondo torto ao cão de uma exnamorada e já só quero é ler um livro sobre de poesia, no sofá da sala com a televisão ligada, e depois fico ali. Os meus amigos estão a falar de como era fixe uma outra festa qualquer; já estou a ver, eu sentado no meio do fim do mundo com toda a gente a divertir-se e a lamberem a testa uns aos outros, outros a falarem sobre subcultura qualquer tipo ficção cientifica e a rirem-se muito alto e ainda uns com cara de cú porque ninguém olha para eles porque estão mau arranjados precisamente como a minha mãe gosta e as gajas no fim do mundo só querem pau; e eu, se eu fui é pelo vinho, primeiro porque a textura do vinho verde agrada-me, depois fico à espera que venham chamar vinho ao branco e depois já tenho tema para um sermão que cancele o Apocalipse de tão antioxidante, é que só há vinho verde ou maduro, sendo destes melhor o verde., e o resto é mijo de uva velha com diabetes. Como só há uma gaja gorda interessada em mim eu faço referencia ao branco e ela sai chateada porque acha que eu a chamei gorda e que sou machista, o que poderia muito bem ter acontecido e não digo que não tenha deixado escapar um certo desconforto que tenha sentido por parte dela em relação ao corpo dela quando disse que gosto de vinhos encorpados mas não largos; já vi pior, disse-lhe. Já estou a imaginar que vem aí o fim do mundo e eu vou ter uma ressaca terrível no dia a seguir. Vou acordar na cama com uma hippie qualquer que engatei a falar de yoga e com com piadas manipuladas mas muito desenvolvidas que envolvem a kundalini, ela já estava toda drogada 1. é o fim do mundo, 2. já passa das 3 da tarde, e se já tinha problemas em aceitar o mundo capitalista tal como ele é (impotente e sujo), quanto mais acabar com uma coisa tão mau resolvida. Fazemos a obrigatória cópula matinal cheia de sonhos e violência e ela é hippie e de esquerda e tem problemas com o falo do pai e mais ainda com os da mãe e vai dizer-me então enquanto enrola os meus pêlos do peito «O que fazermos agora depois do fim do mundo?» É isto todos os fins de semana, tiro-a de cima e pergunto-lhe onde estava no 25 de Abril? Não tem idade para saber isso e eu vou preso se continuar com isto, penso; não lhe digo que já vi e me falaram de tantos fins do mundo e como já não tenho cú para tanta festa de merda, no próximo fim do mundo nem apareço.

trovoada

Os raios como caminhos mais curtos dos electrões. ka-bum! Os meus caminhos mais curvos entre divagações. brrr-booom! As rectas como imagino as mais curtas direções. trommm! Os pensamentos como impossíveis conclusões. kra-rroum! Os electrões como isto ou aquilo ou outra coisa qualquer. ka-brom! Isto e o resto como tudo mais, estou por tudo, é o que me disserem que é. Os raios dos electrões que não se orientam, os meus pensamentos directos para os edredões, as rectas de conclusos impossíveis e as divagações cada vez mais curtas. Resta-me que ranjam os raios à roda de mim ribombando rudes rugidos na ronda noturna, entretantos tremendos trovões tramam na tormenta trovas terríveis tremendo nas trevas e luzindo livre livedas linhas luteas que limam no leino limite uma leve luz lilás. e Zás!

A cacophonous cannonade of thunder,
doesn’t it make you wonder?
blasting buss of blunder,
pitter-patter rain, pouring under,
streets awash like tumult tundra,
lucid lightning flash,
clip-clop heels as people dash

“Storm” – William Thomas Dodd

O livro negro

Penso num livro inescrível. Uma história de rodeios inovelados e emaranhados sem fim, e depois, uma conclusão astronómica de todos os seus conflitos à velocidade de uma pena movida à velocidade atómica; um LED acesso no fundo negro do infinitamente possível. Seria dizer: Eis o livro, este é o Livro. Este livro conta uma história; a história ditada por uns, auditada por outros e totalmente inaudita, porém conhecida por todos, porque todas as histórias são a nossa particular forma de mergulhar inevitavelmente numa mitologia geral. A História é intermitentemente a folha e a raiz da mitologia. E eu conheço as mitologias e o mito e o verbo que as criou, eu pequei e vi o mundo, sujei-me nele. Como podemos já mergulhar numa mitologia sem levarmos uma potente marretada no crânio nu? O Livro como marretada nua no crânio impotente.
Eis as pequenas forças que organizam os átomos da grande literatura: metalinguistica, intertextualidade, poesis e estilo: a bigorna, o martelo; a água e o fogo. Na montanha onde os anões forjam as masmorras morais nas catacumbas da memória.
Dizia, sobre as mitologias, as histórias plenas de transversalidade, o guião uno da coragem e dos medos, um livro repleto de uma história insofismável, fruto das alquimias literárias possíveis onde se unissem a mecânica e a química. Um homúnculo perfeito das partes inquestionáveis da grande literatura, a mistura de todas as coisas, os sumos de todas as frutas onde cultivaram os heróis os seus senhores, e os seus senhores os seus monstros, e os seus monstros os seus heróis feitos da mesma aberração e coragem. Percebam, um monstro é apenas a aniquilação de um herói concentrada como um ditador é a aniquilação dos sindicalistas, e um ditador que derrota os sindicalistas é no fim um ser derrotado à espera da morte da pena que escreveu a sua história, pois ele é apenas um espelho, e se a história então se revela como monstruosidade, já são então os monstros que as lêem e os monstros constroem outros senhores que serão outros heróis que serão os monstros de outros monstros. E assim um livro repleto de toda a banalidade e tédio de todas as obras propostas a serem grandes porque não vivemos senão num grande livro autorizado por todos. Mas se dito de forma tão grave e absurda, com uma forte invocação do estilo traz a grandeza destes caminhos propostos à grande mistificação das criaturas mágicas; dos mamutes gigantes de vários pisos das Américas, aos Ogres musicais da Flandres que se vestem com pitorescas telas, aos proverbiais políticos prosadores da Austrália, marsupiais – dentro da bolsa dentro do bolso, dentro da bolsa dentro do bolso -. Se recuso os homens-personagem é por que eles são todos a paisagem e delas a mais árida, mas senão de um movimento da pena livre, digo, de erguer a escrita de um ápice: sei onde vais sacristão-liberal, sei os caminhos do poder e interessas-me, como entrelaças as malhas do teu linho, quando o cultivaste, quando punturaste o dedo na roca tingindo de sangue o chão e como se vê no entrelaçado linear do teu casaco inteiro toda a magia e fantasia entregue às alquimicas artes metamorfas da compra. Dizer então, como desce do céu num bailado arcaico baloiçando, qual pena que cai como sobre a mão do autor, essa cidade capital de onde as grandes leis do mundo brotam escritas por trezentas mãos de homens pagos ao peso da própria cidade, o ouro que também ele veio esvoaçante do espaço fantástico, palavra por palavra, nenhum nascido naquela cidade sem ter saído da biblioteca donde escrevinharam as rendas, mas servidos das bebidas mais finas pelas mulheres mais nuas deste reino e dos outros. Mortos todos de uma pazada de piolhos literários a entrarem pelas orelhas, pela nesga dos olhos, piolhos a entrarem literariamente pelas narinas e enchendo a boca de cada um.
Daqui, brotando de uma terra fértil como nuvens, onde o solo é tão macio que se desfaz pelos dedos dos agricultores, que foge à precipitação da enxada pela energia implicada na velocidade da pá de ferro sobre a terra que é tão macia como as nuvens que se desenham nos sonhos dançáveis dos agricultores. Aqui, morando precisamente nos últimos capítulos deste livro negro, a vida é tão simples como se de um paraíso se tratasse, onde é dos rios repletos de peixes que os homens caçam as suas algas onde a fartura abunda nos tempos em que as vacas não precisam de engordar, é preciso pousar os peixes de volta nos rios pois eles enchem os baldes que são precisos para regar os jardins que plantamos, onde as uvas se estouram no calor do verão inundando o ar de vinho. E é este jardim o herói que não dorme, não se esforça e a todos conquista.

Gritavam numa manifestação que é tudo a mesma coisa, estava um conjunto indistinguível de gente agrupada a fazer alvoroço. É tudo a mesma coisa repetiam incessantemente. Ora, eu queria há muito perceber se havia coisas que não têm nome ainda, pegar num inominado ao colo e aceitá-lo como tal. Tão certo que estava de que as invocações afloram a magia adormecida das coisas, que ri. Como havia de haver algo que ninguém lhe apontara um dedo que fosse?, fosse qual fosse o dedo, e assim transformar a tal formosa coisa numa enorme malha formada de alegria ou ódio que se desdobra infinitamente nos campos imemoriais. Estas pessoas eram em si mesmo iguais, riam como quem chora e não faziam coisa nenhuma que alguém não faça também. Lembrei-me logo da sobrancelha e do intercílio. Então fui e gritei que era tudo a mesma coisa e abraçamo-nos nisto, uns estavam de tronco nu, outros vestidos, mas era realmente tudo a mesma coisa, embriaguei-me nisto e gritei não só que tudo era a mesma coisa como que nada realmente fazia diferença alguma. Pegaram-me logo ao colo, lançaram-me no ar e perguntaram o meu nome, nunca ninguém perguntara o meu nome, gritei que Nós não temos nome!; É tudo a mesma coisa!, gritei, e eles gritaram comigo. fomos juntos nisto pela praça fora e celebramos e cantamos canções e no fim trocamos abraços e sorrisos. Fomos cada um para a sua casa, fazer cada um a sua coisa, mas sentindo que estávamos todos ainda juntos, ainda fazia cada um a mesma coisa nas diferentes cada coisa que cada um fazia. Então, convenci os amigos que é tudo a mesma coisa, lentamente deixei de dar nomes às coisas, era afinal tudo a mesma coisa, e passei a não ver mais coisa que não fosse mais do mesmo. E ainda agora não sei o que pensar disso.