Em última análise um tubarão representa a energia armazenada de milhares de algas. Ou digamos que são as algas quem colhe o trigo neste país luminescente. Há uma hierarquia nisto, uma equipa de futebol; quando um vírus ou um homem- quem sabe quem intercede por quem – caça um tubarão ninguém se pergunta se o homem é, em que momento da análise for, a energia armazenada de tantos tubarões. E alguma vez virá a perguntar-se se é ele próprio um mecanismo avançado dos micróbios em primeira análise. A moral estuda a loucura, e a loucura estuda a moral, pelo que nesta direcção os elementos não se cruzam e nada sabe a moral da moral, quanto se importa a loucura de si mesmo.

Da mesma forma há momentos em que são os loucos quem amassa o pão, outros há que comam o pão dos moralistas. Em que momento perdemos o controlo? Se são agora os peixes médios a energia acumulada dos tubarões.

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do pó às cinzas

De um modo geral, os efeitos indiretos do fogo sobre as populações animais que vivem na dependência de uma determinada comunidade vegetal, que de repente deixa de existir, são bastante mais importantes que a mortalidade diretamente provocada pelo fogo. Em relação à fauna do solo verifica-se, em geral, uma diminuição importante das populações das diferentes espécies que habitam nas camadas mais superficiais do solo e da manta morta. Outros grupos de insetos, como as formigas, podem, pelo contrário, ver aumentada a diversidade de espécies existente, devido à capacidade que algumas têm para colonizar o novo meio. É igualmente esta capacidade para colonizar um novo meio que leva ao aumento de algumas pragas florestais.

Este aumento das populações de insetos pode levar ao aumento da população de pica-paus e de outras aves insectívoras, como as toutinegras. Após um incêndio, as árvores mortas podem igualmente constituir locais excelentes, não só para a alimentação, mas também para a nidificação de diversas espécies de aves, tais como os chapins. Da mesma forma, a criação de espaços abertos com vegetação rasteira pode beneficiar as aves que vivem no solo, como as perdizes ou as codornizes. Pelo contrário, as espécies de aves que dependem da existência de folhas e ramos para a nidificação e alimentação são normalmente prejudicadas, sobretudo durante os primeiros anos, até à recolonização da área pela vegetação.

 

Em relação aos mamíferos, os efeitos de um incêndio podem igualmente variar, dependendo bastante da intensidade do fogo e da área queimada. É comum a utilização de fogo controlado em pequenas manchas, como forma de melhorar as condições de pastoreio dos veados, dada a maior diversidade de vegetação e a disponibilidade de tecidos mais tenros nas novas plantas e rebentos. No entanto, em incêndios de grande intensidade e de grande extensão, os efeitos podem ser altamente negativos sobre estas espécies, dada a repentina ausência de abrigo e de alimentação. Este tipo de efeito é bastante mais importante do que a mortalidade direta, dado que uma grande parte dos animais consegue fugir às chamas ou refugiar-se em tocas abaixo da superfície.


No que toca aos seres humanos, ou naquilo que eles tocam, verifica-se uma maior prevalência dos seus grupos sociais dominantes em áreas queimadas, ou um crescendo da tentação destes a procurarem um conforto fetichista na área queimada. Embora as sociedades que por motivos circunstanciais estejam afastadas dos meios de produção privilegiam uma estética do caos, ou se precipitam no absurdo de ser livre, ou os motivos estruturais levam as comunidades batizadas no fogo a privilegiarem a aniquilação do que há de mais puro. Nota-se no homem uma certa fuga ao que está correto, ou como se inventaram as estradas para questionar o bípedismo agrário. O cimento é uma igreja às cinzas, que se reza acendendo petróleo, ou a como se queimam as coisas já sem fogo na era da paz: ou já a água não quer descer, ou já o fogo não queima a terra. Esqueceram-se do pó que nisto da era das cinzas já não voa veloso ao vento d’este, antes os vendavais começam no próprio fogo, como é evidente pelas caras de todos por aqui a fora, e é do pó que vem a força que o apaga. Mas o pó é um sinal do velho que se insurge quando se acumula porque o fogo predomina nas imediações da secura, ou tudo que se agregue é o comunismo das morais mau digeridas do passado; nada já alimentará a vida aqui senão a saudade da terra, ou o crescer aqui é para baixo e para dentro;
ou tudo que há é pó e cinza, e obrigam-me a escolher.

 

 

vê-de!

Os quatro lados do corpo, levantam-se lentamente sobre as mãos, vê-de!, corre tinta vermelha sobre as veias verdes, e eu que sei das artes que dão cor ao corpo, se mesmo a cara cora sinceramente nas mentiras que digo? Ser real e ser eterno, nas linhas que escrevem as páginas, em que sei nada ser dito por mim senão a boca ser a minha e as mãos mexerem-me o eu, e a cabeça doer quando cai sobre os livros. Antes, tudo isto já cá estava organizado. Eu já sabia todas as coisas antes de chegar a este ponto em que me esforço por esquecer. por vezes quero é’rrar de prepósito, e olho para o que fiz como uma piada exagerada, nem errar já sei, e deixo ficar sem ter a certeza se é verdade ou mentira aquele erro treinado. Junto as frase pelas ordens que é a própria ordem das palavras que me ordena. Nada posso escrever de outra forma, senão a forma das formas. E eu sei, porque eu já sabia, que há coisas que correm misteriosas pelos segredos das perguntas, mais materiais que as palavras mas mais etéreas que os significados. Cresço-me porque o tempo passa, e vejo o corpo pender sobre um fino ribeiro de prata, sem cor alguma, um reflexo mais brilhante daquilo que passou.  sei nada ser dito senão por mãos caídas. os lábios dançam e cantam desorganizações periódicas, enquanto bate lá fora um eu etéreo com um tronco de prata os ritmos da cabeça. Tão incapaz quão aquela árvore, apenas posso gritar o que alguém disse para que eu gritasse, e esse alguém já nem é talvez um, nem vários patrões. Antes, já cá estavam organizados os patrões. A história pode pouco perante isto. Quer é errar de propósito e precipitadamente, vê-de!, quão ela é velha e infértil e seca. Quem me dera ser escravo, ter ao menos a obrigação de não saber o que fazer, mas tudo sempre me ofereceram demasiado simples. Claro que recusei, levaram a simplicidade com eles, compreendo porque caminhos se move a água dos ribeiros, mais que isto é simplificar tudo, as coisas importantes são confinadas a um pequeno quarto, a poucos amigos e a um parco baú. Fiz crescer meu coração no seio enrodilhado das mãos e cuspi nas artes. Obrigo-me às personagem dos outros, gosto de vê-los vencer – como que perco quando ganho algo por engano. Vê-de! que junto as palavras materiais como encantamentos obscuros, e nada digo que não seja esforço de fazer esquecer o que não é real nem é eterno. Decido nos livros que não vou mandar: são formas que dão forma às formas: escrevem-se poemas para que ninguém saiba o que vai cá dentro. Por isto, parem estes quatro lados do corpo, reparem, e lamentem-se lentamente sobre as mãos majestosas que escreveram com a maternidade esquecida das letras no erro treinado, vê-de! que é vermelha a tinta que corre sobre as veias verdes, e eu, que sei das artes que dão cor ao corpo, digo mesmo, que já antes, muito antes, tudo isto já cá estava organizado.

Maçã de Edão

alguém passava por ali, tinha fome, alguém comeu uma maça vermelha da árvore e tudo lhe foi revelado, por extenso, que é a melhor forma de descobrir algo, percebeu que comia os seus próprios ritmos, como subtipos de vida dos mais variados géneros, havia os que faziam andar e os que o faziam parar, chorar e rir, correr e sentar,  comer e vomitar, depois passou fome por muitos anos, afinal de contas tinha uma maçã na garganta, uma bola histérica que gritava lá dentro, mulheres espanholas vinham dar-lhe beijos espanhóis no pescoço erguido, os beijos quixotoscos tornavam-se manobras rastejantes de animais rasteiros do mundo e prolongavam-se pela pele do corpo a fora alongando-se pela noite do dia a dentro, às vezes passeavam os lábios por regiões anatómicas muito especificas, desciam da soberba dos lábios à porta das nuvens (2P), contornavam a raíz do peito (18E), mergulhavam na piscina do Céu (1Mc), repousavam-se na vila do peito (19Bp), e quantas noites lá ficavam até partirem de novo no seu caminho pela corrente celestial (18Bp), de um salto os três, o armazém do espírito (25Rn), as ruínas da alma (24Rn) e o selo do espírito (23Rn), ficavam para trás anunciando a solidão quando se despediam os beijos na passagem de pedra (18Rn), apartir dali não nasceria nada.

caminho

a mão mexe o braço, o braço mexe o ombro, o ombro mexe a coluna, a coluna mexe os rins, os rins mexem o coração, o coração mexe os liquidos, os liquidos mexem o sangue, o sangue mexe o espirito, o espírito mexe a cabeça, a cabeça mexe a palavra, a palavra mexe a ação, a ação mexe a mão
cada momento em que a mão mexe, já o momento a mão mexeu

O casamento é a precarização da prostituição

 Quando uma coisa está errada dá-se-lhe um nome, um preço e um dono. Rapidamente se transforma um problema moral numa coisa da ordem prática. Uma mulher casada é uma fêmea precária; para ela o patrão vai à caça de uma designer para as crias, olha-lhe o portefólio e mal ele chega para ela, assinam um folhetim: jogam um jogo de pares, ele dá um potencial social, ela espera um momento de entrar nos quadros: faz tudo para a casa, produz-lhe um falso prestígio, sintetiza-o e embrulha-o. Fá-lo por dinheiro como é natural, ou por um outro tipo de capital menos abrangente. Ele é racional, pensa em explorar a sua força de trabalho, não lhe interessam os meios, gere os momentos da vida dela, sabe que não vai arriscar sair dali pra fora de um arrêgo da alma – nestas coisas deve conservar-se uma certa inércia social, os pais dela estão do lado dele e as amigas dela também não estão melhores; pelo menos ela tem classe; ela passa o dia no escritório a fazer renders e à noite vão vender o despotismo nos cafés; há, durante a semana, reuniões em vários salões para internacionalizar o marido. Claro que ela é essencial nesta empresa. Claro que ele está mais interessado no Capital Social da empresa, não lhe paga as horas extra e não se importa que ela faça uns biscates por fora. Ela esforça-se por não ser despedida, exigiram-lhe exclusividade, nem foi tanto a lógica, que é absurda, mas o tom de voz fez efeito, deixou de procurar outras soluções porque acredita que a empresa vai ter futuro. Não faz mais nada e vendeu-se por pouco dinheiro. Já lá está há anos e não ganha para o que vende. Há precárias e precários, há casamentos e casamentos. Aos fins de semana começam as manifestação pelos direitos do trabalho. Todas queriam ser freelancers, trabalhar muito, viajar, ganhar países e receber bem ao fim do mês. Mas são os tempos que vivemos, iguais a todos os outros, só as palavras são diferentes.

Casàsas

Surge como de terra a parede em frente ao autor, um tom de chão percorre a casa do inicio dos pés à ponta do olho que se ergue aos tetos, era uma casa feita de viver, ou seja, tinha muito pouca coisa, quase nada lá dentro; era uma casa térrea com paredes que lembravam o saudoso acto heróico de morar e não uns prédios que se abatem simplesmente para cima, prédios socialmente congruentes, uns prédios democráticos. Estavamos todos presos entre prédios e empresas nesta espécie de cidade geral. Entrar na casa foi como sair à rua. Quero dizqer que nos encontramos. Então entramos todos pelos pés na caixa mágica. Sonhei com uma sala preta, onde a luz espalha-se por igual, nas paredes feitas de mármore negro. A luz-toda da sala era preta, mas era uma sala com luz e não um corpo, é uma sala que não era escura como os corpos, estava cheia de luz e vê-se perfeitamente que era preta, sem os segredos e os mistérios dos corpos. Então na sala de luz se via a vida que espreitava por um buraco do fundo, era um cinema, mas não dava vídeo algum porque toda a sala estava coberta de luz – É mais da alquimia que da ciência, saber que o cinema consome a noite, então já pouco se percebe das metamorfoses da luz. Não se tratava de magia, nem havia o sonho da magia, não se faziam sombras chinesas nas paredes negras. Mas era como se tudo fosse verdade, como só tudo é verdade nos filme. Vivia-se a casa como se estivesse sem dono, ou era a casa de todos por lá não morar ninguém, ou era a casa de todos. Decidiu-se que era a casa de ninguém concordadamente, e saímos para a luz iluminante do dia diurno, onde os prédios são brancos e têm cores não vivas. Para que não se esqueçam que as cores fazem falta à vida, ou para, não vá o homem admirar-se, que não se lembrem que é hoje às cores que faz falta a vida.