as máquinas de desenhar emoções

O Bernardo tinha sido preso porque insistiu na frente de um deputado que os edifícios pertenciam apenas às suas gárgulas e cachorros: São eles quem mora nos prédios! Os homens são a sarna do tijolo. O betão corrói o tempo! estava rabiscado em cada muro da cidade e nisto o governo fizera-nos um favor, a cidade era praticamente só muros, então desatamos a rabiscar. Por vezes entro na penumbra deliberada de um edifício olhando as formas retilíneas dos alçados, a morfologia inquebrantável das lajes e admiro as pequenas provocações das linhas, lembro-me que não posso perder a noção do ridículo ou logo me civilizo. Aqui não acontece nada, dizem-nos as paredes inférteis, havia-as tão estéreis que quase nos arrependíamos de gastar a tinta, porém não falhávamos uma parede. Por vezes chego à cama cansado de pensar o mundo, mas hoje, penso que cada arquitecto deve sair com um número de série determinado e cada arquitecto deve sair com um erro determinado e talvez se encontre um defeito no fábrica de fazer arquitectos. Penso que, se utilizar um computador suficientemente potente serei capaz de ainda nesta vida descobrir a relação matemática entre o erro e os contemporâneos do erro. Depois seria um mero jogo político, convencer os outros do que o que está errado é que é bom. Talvez pudesse então utilizar o próprio arquitecto para isso.
Saí de casa com o arquitecto errado escondido dentro do casaco e quando encontrava um camarada ou um amigo que não fosse bufo dizia-lhe: reparai!, reparai como se mexe, reparai como é um arquitecto errado; reparai, descem-lhe as calças até aos sapatos! Sabe desenhar! Depois pedia-lhe que explicasse as linhas do céu no prédio. Víamos logo que não era um arquitecto que funcionava bem pois não tinha grande paleio, pegava num caderninho e fazia na nossa frente composições numéricas de grande qualidade e depois explicava com um desenho as relações das formas. Se lhe pedíssemos que dissesse algo, ele dizia que o desenho mentia menos que as palavras. Talvez haja qualquer coisa de profundamente não literário neste arquitecto, disse um camarada que era médico. De facto, os bons arquitectos do passado, os que vinham com erro, não tinham uma particular dificuldade em expressar sentimentos, apenas o faziam pelo desenho, eram máquinas de desenhar emoções. Quando ao almoço lhe perguntamos se queria vinho ele respondeu com um sorriso sem olhar para o rótulo da garrafa, ficamos surpresos e deixamo-lo à tarde no jardim, enquanto fomos fazer uma pequena sesta e amar-nos todos enquanto discutíamos a questão de Singapura. Quando voltamos ao jardim, havia uma pequena floresta negra e os animais mágicos faziam fila para entrar. Demos-lhe então um martelo para a mão e fomos dançar para o salão. Uns dançavam e os outros ficavam a conversar nos cantos do grande salão. Voltamos depois de contarmos os pincéis para o ataque do fim de semana, sabíamos que havíamos de ficar surpreendidos com o seu trabalho. Saímos e o arquitecto errado dormia à sombra de um carvalho no jardim, demos uns passos para fora para admirarmos a sua obra. O caixote de betão que tínhamos ocupado era agora uma bonita casa de granito, não tinha um alçado envidraçado nem um centímetro da fachada era cego, era uma casa térrea e era adorável ficar a olhar para ela. Sobre a porta que dava para o jardim, um azulejo dizia: A casa deve ser o baú de tesouros da vida. Sorrimos, conhecíamos o grande pensador revolucionário que era o autor da frase. Pensamos que talvez com um único arquitecto fossemos capazes de mudar o mundo. Vivêssemos uma vida suficientemente longa para o ver. Explodimos de confiança e rimos tão alto que o acordamos. Então eu cometi um erro radical. Ele veio ter connosco e estendeu-nos a mão que tinha o martelo. Eu estendi a minha mão e fechei a mão dele com força sobre o martelo e disse-lhe. Vai, usa a tua arte, salva a arquitetura e muda o mundo.
Ele martelou a cabeça de cada arquitecto.
Na manhã seguinte acordamos com a noticia que todos os arquitetos tinham sido assassinados com uma martelada na cabeça. Nesse dia bebemos e saímos à rua com as armas entre os carros a arder e já estava o povo todo a partir as paredes, a reconstruir as casas e a calcetar as ruas e a ocupar as estradas com lindos passeios e as auto estradas por jardins, a revestir os muros de flores e a plantar as arvores para daqui a cem anos. Uma bola vermelha rolou até aos meus pés, uma criança corria na minha direção com os seus olhos brilhantes, dei um chuto tosco na bola e choramos.

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